Avançar para o conteúdo principal

Mensagens

Uns cegos, outros surdos

gritas, gritam até que o outro ensurdeça,  até que fique com os pés presos na lama e se esgote. gritas, gritam palavras e frases de uma ordem estéril que nos matará. rasgam os pulmões com cânticos, alucinados,  com uma narrativa estúpida de quem nos crê estúpidos...e seremos? rangem os dentes,  soltam os caninos e farejam a hesitação com o dedo no gatilho, lambem-nos o medo na pele... abrem as gargantas de onde saem línguas como canos apontados ao nosso cérebro,  línguas sibilantes num hálito de enxofre, numa infindável oratória que nos queima a pele, nos rompe a mente. destroem o silêncio. gritam que somos vítimas,  as suas vítimas,  as legítimas,  enquanto desviam o olhar e fecham as órbitas embaciadas para que a realidade não os capture. gritam, gritam e gritam pois enquanto gritam não param,  não pensam, não deixam que ninguém pare, e ninguém pensa. embalam os corações nas bandeiras e nos hinos para conseguirem adormecer,  para que o sono...

A essência dos dias.4

Hoje de manhã, bem cedo, chego ao trabalho. Ligo o portátil. Arrumo a mochila. Ligo a máquina de café. De repente oiço um alarme. Um alarme com um som que nunca ouvi. Vou tirar café, mas o alarme não para. Será o portátil? Não! Será o meu telemóvel? Vou ver e é de facto o meu telemóvel. Leio no ecrã: "8h14. O tempo terminou!" Sento-me. Olho o rio pela janela. Espero que termine... São 8h30, a Antónia chegou e disse-me bom dia. Ainda cá estou! Falso alarme! Vou tirar café…

É este o dia anunciado, a hora da desesperança!

É este o dia anunciado, a hora da desesperança! Expulsos de um tempo julgado sem fim, onde os corpos se banharam indolentes e incautos, procuramos em vão, de novo, o caminho...sem um fio de luz, sem alento, sem consolo. Os teus olhos, os meus olhos, os nossos olhos quase cegos choram, tardiamente, a memória ardida, prostrados perante as etéreas cinzas que de nós se apartam. É esta a manhã negra do nosso desalento! Afastados da vida, num devir atormentado que nos lança as presas onde já não há carne,  resta-nos cumprir a pena aceitando-a como um bálsamo. Os meus braços, os teus braços, os nossos abraços esmagados, ameaçados, extintos, são as estátuas de pedra que tomam agora o lugar das árvores caídas. São estas as criaturas inumadas em que nos transfigurámos! E assim, levianos, soterrados no sedimento do nosso desânimo, ora resignados, ora alarmados, seguimos...com a granada dentro do peito.

Oiço o carpir do tempo no meu encalce

Oiço o carpir do tempo no meu encalce, enquanto corro a iluminar os últimos quartos.

A essência dos dias.3

Caminham agarradas pelas mãos. De mãos dadas. Enormes na sua tenra idade. Juntas na multidão que sai do comboio. Caminhamos juntos! Sobem a rampa a espalhar esse amor. O seu amor! Paixão! O amor que lhes pertence. O amor que agora vemos. Elas, e eles, e nós todos visíveis. Vemo-nos! Iguais. Iguais a mim! Iguais para todos?...Talvez ainda não...plenamente...mas estamos tão perto! Bendito dia! Bendita manhã inundada de esperança e luz! Bendito final de setembro.  O Sol e a alma vibrantes, neste instante feliz plantado no horizonte.

Fragmento.2/1

Senta-se à mesa da cozinha depois de aumentar um pouco o som do rádio. Raramente liga a televisão. Há algo que se perde das imagens e escava dentro de si um imenso vazio. Ela não sabe depois como o preencher. Serve-se então, apenas, do som. As vozes. As conversas. A música. Começa a dobrar a roupa interior e o seu gato Alberto salta para a mesa e acomoda-se por entre as meias. Olham-se. Ajeita o cabelo instintivamente quando uma ou outra canção tocam no rádio. Afaga-o junto ao pescoço, em redor das orelhas, e por fim encosta levemente alguns cabelos dispersos da sua franja com o dedo médio da mão direita. Parece que executa um código secreto, ou um pedaço de dança, que a devolve generosamente ao passado.

A essência dos dias.2

O livro aberto pousado nas suas mãos. Na macieza dos lábios as palavras mastigadas em silêncio e na dobra das pálpebras pequenos fragmentos de texto que não couberam naquelas páginas. A serena curva temporal do rosto acumula todos os pequenos assombros emocionais que cada parágrafo percorrido lhe desperta. O belíssimo rosto do ser amado a ler ilumina-se entretanto por um raio de sol que abre caminho por entre nuvens, braços, ombros e sacos. Olho a sua face iluminada.Iluminada pelo singelo e extraordinário raio de sol que ali escolheu terminar a sua viagem cósmica. Ali, no seu rosto, entre tantos outros na carruagem do comboio numa manhã de fevereiro. Ninguém atenta na singularidade deste instante. A luz que há minutos partiu de uma estrela viaja agora connosco no comboio. Ilumina-te. E na dobra do tempo, como antes na dobra das tuas pálpebras, somos atingidos pela poeira desta centelha. Somos perfeitos. Estamos numa única dimensão. Estamos em todo o lado.

A essência dos dias.1

Comove-me um casal de namorados que encontro por vezes em Algés...ele vem com ela até à estação. Param perto das portas de acesso à gare. Dão um primeiro beijo mais efusivo. Parece que estão a ouvir uma música só deles. Depois conversam um pouco. Dão mais um beijo e abraçam-se...de olhos fechados, tão apertados. Beijam-se de novo. Ela passa para o outro lado. Dizem adeus e desenham corações com as mãos. Ela diz ainda que lhe telefona quando chegar a casa. Percebemos que são duas pessoas diferentes e essa circunstância, que em tantos momentos certamente os limita, ali, no amor, torna-os mais livres e belos.

Ainda não é tarde

Os ramos tocam devagar nos vidros da janela e esse toque quase atonal marca um tempo peculiar nesta véspera de Natal. Ainda não é tarde. Eduardo espera-a. Nos últimos dias, reviveu com minúcia cada instante daquela pequena história. Reconheceram-se durante meses, cruzando os passos nos mais diversos lugares, e parecia agora claro, na lucidez própria da distância, que estes eventos poderão ter perdurado por muitos anos, sem o perceberem. Aconteceu uma vez, na carruagem do metro. Num dia de avarias e supressões, o mundo empurrou-os abruptamente um de encontro ao outro. Entreolharam-se, amachucados e suados, e logo que possível afastaram-se. Uns meses depois, no encosto de um setembro ameno, conversava na avenida com um colega de faculdade e Madalena passou por eles, arrastando consigo a última luz do dia. Ele olhou-a, sentindo-se sozinho naquele instante. Viu-a como se fosse um náufrago e aquela fosse a luz da sua salvação. Horas depois, ainda sentia na boca a estranheza ...

Reduz-me ao tamanho das tuas mãos

Reduz-me ao tamanho das tuas mãos,  e que os silêncios que nos prendem, soprem a poeira do caminho.  Aperta-me no círculo perfeito do teu olhar para que, ao perder-me no mundo, possa seguir a luz que madruga nas nossas memórias. Cinge-me no alvoroço do teu sorriso, e que a tua boca, nas palavras que desenha e canta, comande o sangue que se abeira do coração. Cura-me com o teu sereno respirar, porque assim nos consagramos, assim ardemos, assim consistimos.  Embrulha-me agora, como antes, na pele quente do teu corpo, para que a vida possa ser apenas isso, e tudo isso. Poema escrito para a São e para o Armando, inspirado pela celebração das suas bodas de ouro.

Fragmento.1/2

Dentro daquele momento peculiar quis não ser ele. Quis enterrar esse outro por entre a finura da areia. Adormecê-lo no grão das imagens que se revelavam na tibieza da tarde. Mas o fim deste dia estava contaminado e arranhava a sua pele com uma dureza de cores singulares. Mexe-se e respira profundamente até quase extinguir todo o ar que ainda lhe pertence. Precisa romper com a linha que se desenha à sua frente. Dirimir a ameaça. Dá então alguns passos pelo paredão. Sente o corpo das pedras encostado à borracha gasta dos ténis. As arestas gastas das pedras da calçada, daquele paredão, que brilham indulgentes aos seus passos e magoam delicadamente os seus pés. Caminha vagarosamente, esperando que esta demora o devolva à sua espessa solidão. Esse estado notável e excêntrico que desde cedo teceu, alimentou e conservou.

Fragmento.1/1

Nunca quisera voltar àquele lugar. Odiava regressos. Mas a vida puxara-o, em cada momento seu de distração, e há muito que deixara de estar atento e seguro. Ali estava agora nesse presente sem sentido algum, naquela beira-mar acumuladora de memórias. Apenas ali as imagens persistiam. Apenas ali. Quase imaculadas. Depostas. Sagradas. Como uma armadilha.

A noite encosta-se nas minhas costas como uma irmã que esteve ausente

A noite encosta-se nas minhas costas como uma irmã que esteve ausente, e promete-me que a morte é apenas mais um movimento. Ela deixa o meu corpo arder vagarosamente na luz que ainda persiste no mar, e lembra-me que esta mesma luz que agora me extingue, é a mesma que iluminou o meu passado, esta mesma chama que agora me arrefece, é aquela que me silenciou os medos,  e o mar que me engole tem o mesmo sal que outrora me sarou. A minha irmã impudente e ciosa, cobre-me com um manto pardo, uma pele tecida de pecados e virtudes, áspera, perfumada e penosa, uma mortalha que me consome o oxigénio no seu odor placentário e primordial. Não sei se me entrega, se me devolve, ou me abandona. A noite encostou-se nas minhas costas como uma irmã que esteve ausente, e prometeu-me que a morte era apenas mais um movimento, e os nossos dias um ciclo de Perseidas que não se extingue.

As derradeiras cores na luz desta tarde, leva-as contigo

As derradeiras cores na luz desta tarde, leva-as contigo, Embrulha-te nelas ou oferece-as pelo caminho. Leva contigo também o cheiro a maresia preso nos pinheiros, E as nuvens que ficaram entrançadas no vento. Este vento que persiste como chuva na nossa alma. Eu fico a desfiar as nossas conversas, Cada fio, cada palavra, um desassombro de revelações, Fico a demorar os meus dias no abrigo hibernante de cada hora, E, inabalável e poderosa, teço o pano dos nossos afetos. Atravessado o tempo do medo e da euforia, E aquietados os pequenos estrondos no nosso peito, Perfeito o rito, somos puros e sublimes aliados. Fico com tanto de nós, levas tanto de nós. Tu já ausente, íntimo e implacável na tua silhueta ambreada, E eu finalmente mergulhada no derrame quente do sol, Tu e eu, renascentes e desinvernados.

digo-te até amanhã

[o poema de António Lobo Antunes que encontrei num blog e publiquei no hálito azul da tarde...não me sai da cabeça...escrevi este, inspirado no anterior de uma forma absolutamente descarada mas ainda assim humilde] não disse nada amor, disse apenas até amanhã! digo-te até amanhã, porque à noite todas as promessas são trémulas mas ainda assim o coração sossega, ele sossega não sei porquê, mas à noite não procuro razões. não disse nada amor espero apenas pela manhã, e estou cansada porque de noite os caminhos não têm fim e eu nunca chego onde devo, nunca chego a ti, nunca chego onde preciso, não disse nada amor, disse apenas até amanhã! digo-te até amanhã.

entre nós

entre nós as palavras e dentro de nós uma surdez, entre nós a densa negrura de muitas noites, e uma chuva dentro de nós a encher-nos os pulmões, entre nós um único fôlego de pele a consumir, e dentro de nós a clara chama que nos acende, entre nós a dúvida que cai dos lábios, e nada dentro de nós que a dissipe, entre nós o eco dos teus dedos, e dentro de mim apenas luz, entre nós eu estou aqui, eu estou aqui como se estivesse dentro de nós.

habitas-me sem eu querer

habitas-me sem eu querer, e sem te querer perder quero tornar infinito o instante mais breve da minha vida. sou metade de mim, metade vazia, metade tóxica, metade que ainda espera, metade consagrada ao meu medo e ao teu fim. só eu sei que exististe, e que depois tudo mudou. e perco-me. perco-me no espaço miúdo e deserto, na crueza da tua inexistência.

sinto delicadamente o ressentimento

sinto delicadamente o ressentimento dessa ausência que te traiu. a distância que consentiste prolongar e transformar em esquecimento, a distância tecida de silêncio, essas linhas de tempo impronunciável. estou nesta manhã, ausente e longe do centro, na fronteira amena do coração. vejo pássaros de asas azuis, asas escuras e notívagas, que deixam cair as tuas últimas palavras escritas, que te espalham à minha volta e depois partem de regresso aos seus lugares, e com as asas desenham linhas de horizonte onde deverias surgir, mas apenas uma sombra morna te denuncia, e nada nela revela a intenção da tua volta. sinto delicadamente o ressentimento dessa ausência que te traiu, e se não foi acaso ou circunstancial encontrar-te antes, se não é abstracto o nosso entendimento, preciso então da mensagem escondida que esta manhã parece guardar, uma palavra sem promessas e sem recomeço, que me traga de volta e me alimente.