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A mostrar mensagens com a etiqueta Fragmentos

Fragmento.2/1

Senta-se à mesa da cozinha depois de aumentar um pouco o som do rádio. Raramente liga a televisão. Há algo que se perde das imagens e escava dentro de si um imenso vazio. Ela não sabe depois como o preencher. Serve-se então, apenas, do som. As vozes. As conversas. A música. Começa a dobrar a roupa interior e o seu gato Alberto salta para a mesa e acomoda-se por entre as meias. Olham-se. Ajeita o cabelo instintivamente quando uma ou outra canção tocam no rádio. Afaga-o junto ao pescoço, em redor das orelhas, e por fim encosta levemente alguns cabelos dispersos da sua franja com o dedo médio da mão direita. Parece que executa um código secreto, ou um pedaço de dança, que a devolve generosamente ao passado.

Fragmento.1/2

Dentro daquele momento peculiar quis não ser ele. Quis enterrar esse outro por entre a finura da areia. Adormecê-lo no grão das imagens que se revelavam na tibieza da tarde. Mas o fim deste dia estava contaminado e arranhava a sua pele com uma dureza de cores singulares. Mexe-se e respira profundamente até quase extinguir todo o ar que ainda lhe pertence. Precisa romper com a linha que se desenha à sua frente. Dirimir a ameaça. Dá então alguns passos pelo paredão. Sente o corpo das pedras encostado à borracha gasta dos ténis. As arestas gastas das pedras da calçada, daquele paredão, que brilham indulgentes aos seus passos e magoam delicadamente os seus pés. Caminha vagarosamente, esperando que esta demora o devolva à sua espessa solidão. Esse estado notável e excêntrico que desde cedo teceu, alimentou e conservou.

Fragmento.1/1

Nunca quisera voltar àquele lugar. Odiava regressos. Mas a vida puxara-o, em cada momento seu de distração, e há muito que deixara de estar atento e seguro. Ali estava agora nesse presente sem sentido algum, naquela beira-mar acumuladora de memórias. Apenas ali as imagens persistiam. Apenas ali. Quase imaculadas. Depostas. Sagradas. Como uma armadilha.