Avançar para o conteúdo principal

sinto delicadamente o ressentimento

sinto delicadamente o ressentimento
dessa ausência que te traiu.

a distância que consentiste prolongar e transformar em esquecimento,
a distância tecida de silêncio, essas linhas de tempo impronunciável.

estou nesta manhã,
ausente e longe do centro,
na fronteira amena do coração.

vejo pássaros de asas azuis, asas escuras e notívagas,
que deixam cair as tuas últimas palavras escritas,
que te espalham à minha volta e depois partem de regresso aos seus lugares,
e com as asas desenham linhas de horizonte onde deverias surgir,
mas apenas uma sombra morna se denuncia, e nada nela revela a intenção da tua volta.

sinto delicadamente o ressentimento
dessa ausência que te traiu,
e se não foi acaso ou circunstancial encontrar-te antes, se não é abstracto o nosso entendimento,
preciso então da mensagem escondida que esta manhã parece guardar,
uma palavra sem promessas e sem recomeço, que me traga de volta e me alimente.



Comentários

Mensagens populares deste blogue

Fragmento.1/1

Nunca quisera voltar àquele lugar. Odiava regressos. Mas a vida puxara-o, em cada momento seu de distração, e há muito que deixara de estar atento e seguro.

Ali estava agora nesse presente sem sentido algum, naquela beira-mar acumuladora de memórias. Apenas ali as imagens persistiam. Apenas ali. Quase imaculadas. Depostas. Sagradas. Como uma armadilha.


Ruth Brownlee (pintura)

Ainda não é tarde

Os ramos tocam devagar nos vidros da janela e esse toque quase atonal marca um tempo peculiar nesta véspera de Natal.

Ainda não é tarde. Eduardo espera-a.
Nos últimos dias, reviveu com minúcia cada instante daquela pequena história. Reconheceram-se durante meses, cruzando os passos nos mais diversos lugares, e parecia agora claro, na lucidez própria da distância, que estes eventos poderão ter perdurado por muitos anos, sem o perceberem. Aconteceu uma vez, na carruagem do metro. Num dia de avarias e supressões, o mundo empurrou-os abruptamente um de encontro ao outro. Entreolharam-se, amachucados e suados, e logo que possível afastaram-se. Uns meses depois, no encosto de um setembro ameno, conversava na avenida com um colega de faculdade e Madalena passou por eles, arrastando consigo a última luz do dia. Ele olhou-a, sentindo-se sozinho naquele instante. Viu-a como se fosse um náufrago e aquela fosse a luz da sua salvação. Horas depois, ainda sentia na boca a estranheza daquele momento…

Fragmento.1/2

Dentro daquele momento peculiar quis não ser ele. Quis enterrar esse outro por entre a finura da areia. Adormecê-lo no grão das imagens que se revelavam na tibieza da tarde. Mas o fim deste dia estava contaminado, e arranhava a sua pele com uma dureza de cores singulares.

Mexe-se e respira profundamente até quase extinguir todo o ar que ainda lhe pertence. Precisa romper com a linha que se desenha à sua frente. Dirimir a ameaça. Dá então alguns passos pelo paredão. Sente o corpo das pedras encostado à borracha gasta dos ténis. As arestas gastas das pedras da calçada, daquele paredão, que brilham indulgentes aos seus passos e magoam delicadamente os seus pés. Caminha vagarosamente, esperando que esta demora o devolva à sua espessa solidão. Esse estado notável e excêntrico que desde cedo teceu, alimentou e conservou.


Ruth Brownlee (pintura)