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Mensagens

A essência dos dias.2

O livro aberto pousado nas suas mãos.

Na macieza dos lábios as palavras mastigadas em silêncio e na dobra das pálpebras pequenos fragmentos de texto que não couberam naquelas páginas. A serena curva temporal do rosto acumula todos os pequenos assombros emocionais que cada parágrafo percorrido lhe desperta.

O belíssimo rosto do ser amado a ler ilumina-se entretanto por um raio de sol que abre caminho por entre nuvens, braços, ombros e sacos.

Olho a sua face iluminada.

Iluminada pelo singelo e extraordinário raio de sol que ali escolheu terminar a sua viagem cósmica. Ali, no seu rosto, entre tantos outros na carruagem do comboio numa manhã de fevereiro.

Ninguém atenta na singularidade deste instante.

A luz que há minutos partiu de uma estrela viaja agora connosco no comboio. Ilumina-te. E na dobra do tempo, como antes na dobra das tuas pálpebras, somos atingidos pela poeira desta centelha. Somos perfeitos. Estamos numa única dimensão. Estamos em todo o lado.



Mensagens recentes

A essência dos dias.1

Comove-me um casal de namorados que encontro por vezes em Algés...ele vem com ela até à estação. Param perto das portas de acesso à gare. Dão um primeiro beijo mais efusivo. Parece que estão a ouvir uma música só deles. Depois conversam um pouco. Dão mais um beijo e abraçam-se...de olhos fechados, tão apertados. Beijam-se de novo. Ela passa para o outro lado. Dizem adeus e desenham corações com as mãos. Ela diz ainda que lhe telefona quando chegar a casa.
Percebemos que são duas pessoas diferentes e essa circunstância, que em tantos momentos certamente os limita, ali, no amor, torna-os mais livres e belos.

Ainda não é tarde

Os ramos tocam devagar nos vidros da janela e esse toque quase atonal marca um tempo peculiar nesta véspera de Natal.

Ainda não é tarde. Eduardo espera-a.
Nos últimos dias, reviveu com minúcia cada instante daquela pequena história. Reconheceram-se durante meses, cruzando os passos nos mais diversos lugares, e parecia agora claro, na lucidez própria da distância, que estes eventos poderão ter perdurado por muitos anos, sem o perceberem. Aconteceu uma vez, na carruagem do metro. Num dia de avarias e supressões, o mundo empurrou-os abruptamente um de encontro ao outro. Entreolharam-se, amachucados e suados, e logo que possível afastaram-se. Uns meses depois, no encosto de um setembro ameno, conversava na avenida com um colega de faculdade e Madalena passou por eles, arrastando consigo a última luz do dia. Ele olhou-a, sentindo-se sozinho naquele instante. Viu-a como se fosse um náufrago e aquela fosse a luz da sua salvação. Horas depois, ainda sentia na boca a estranheza daquele momento…

Reduz-me ao tamanho das tuas mãos

Reduz-me ao tamanho das tuas mãos,  e que os silêncios que nos prendem, soprem a poeira do caminho. 
Aperta-me no círculo perfeito do teu olhar para que, ao perder-me no mundo, possa seguir a luz que madruga nas nossas memórias.
Cinge-me no alvoroço do teu sorriso, e que a tua boca, nas palavras que desenha e canta, comande o sangue que se abeira do coração.
Cura-me com o teu sereno respirar, porque assim nos consagramos, assim ardemos, assim consistimos. 
Embrulha-me agora, como antes, na pele quente do teu corpo, para que a vida possa ser apenas isso, e tudo isso.



Poema escrito para a São e para o Armando, inspirado pela celebração das suas bodas de ouro.

Fragmento.1/2

Dentro daquele momento peculiar quis não ser ele. Quis enterrar esse outro por entre a finura da areia. Adormecê-lo no grão das imagens que se revelavam na tibieza da tarde. Mas o fim deste dia estava contaminado, e arranhava a sua pele com uma dureza de cores singulares.

Mexe-se e respira profundamente até quase extinguir todo o ar que ainda lhe pertence. Precisa romper com a linha que se desenha à sua frente. Dirimir a ameaça. Dá então alguns passos pelo paredão. Sente o corpo das pedras encostado à borracha gasta dos ténis. As arestas gastas das pedras da calçada, daquele paredão, que brilham indulgentes aos seus passos e magoam delicadamente os seus pés. Caminha vagarosamente, esperando que esta demora o devolva à sua espessa solidão. Esse estado notável e excêntrico que desde cedo teceu, alimentou e conservou.


Ruth Brownlee (pintura)

Fragmento.1/1

Nunca quisera voltar àquele lugar. Odiava regressos. Mas a vida puxara-o, em cada momento seu de distração, e há muito que deixara de estar atento e seguro.

Ali estava agora nesse presente sem sentido algum, naquela beira-mar acumuladora de memórias. Apenas ali as imagens persistiam. Apenas ali. Quase imaculadas. Depostas. Sagradas. Como uma armadilha.


Ruth Brownlee (pintura)

A noite encosta-se nas minhas costas como uma irmã que esteve ausente

A noite encosta-se nas minhas costas como uma irmã que esteve ausente,
e promete-me que a morte é apenas mais um movimento.

Ela deixa o meu corpo arder vagarosamente na luz que ainda persiste no mar,
e lembra-me que esta mesma luz que agora me extingue, é a mesma que iluminou o meu passado,
esta mesma chama que agora me arrefece, é aquela que me silenciou os medos, 
e o mar que me engole tem o mesmo sal que outrora me sarou.

A minha irmã impudente e ciosa, cobre-me com um manto pardo,
uma pele tecida de pecados e virtudes, áspera, perfumada e penosa,
uma mortalha que me consome o oxigénio no seu odor placentário e primordial.

Não sei se me entrega, se me devolve, ou me abandona.

A noite encostou-se nas minhas costas como uma irmã que esteve ausente,
e prometeu-me que a morte era apenas mais um movimento,
e os nossos dias um ciclo de Perseidas que não se extingue.