sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

A noite encosta-se nas minhas costas como uma irmã que esteve ausente

A noite encosta-se nas minhas costas como uma irmã que esteve ausente,
e promete-me que a morte é apenas mais um movimento.

Ela deixa o meu corpo arder vagarosamente na luz que ainda persiste no mar,

e lembra-me que esta mesma luz que agora me extingue, é a mesma que iluminou o meu passado,
esta mesma chama que agora me arrefece, é aquela que me silenciou os medos, 
e o mar que me engole tem o mesmo sal que outrora me sarou.

A minha irmã impudente e ciosa, cobre-me com um manto pardo,

uma pele tecida de pecados e virtudes, áspera, perfumada e penosa,
uma mortalha que me consome o oxigénio no seu odor placentário e primordial.

Não sei se me entrega, se me devolve, ou me abandona.


A noite encostou-se nas minhas costas como uma irmã que esteve ausente,
e prometeu-me que a morte é apenas mais um movimento,
porque os nossos dias são um ciclo de Perseidas que não se extingue.

sexta-feira, 30 de maio de 2014

As derradeiras cores na luz desta tarde, leva-as contigo

As derradeiras cores na luz desta tarde, leva-as contigo,
Embrulha-te nelas ou oferece-as pelo caminho.
Leva contigo também o cheiro a maresia preso nos pinheiros,
E as nuvens que ficaram entrançadas no vento.

Este vento que persiste como chuva na nossa alma.

Eu fico a desfiar as nossas conversas,
Cada fio, cada palavra, um desassombro de revelações,
Fico a demorar os meus dias no abrigo hibernante de cada hora,
E, inabalável e poderosa, teço o pano dos nossos afetos.

Atravessado o tempo do medo e da euforia,
E aquietados os pequenos estrondos do nosso peito,
Perfeito o rito, somos puros e sublimes aliados.

Fico com tanto de nós, levas tanto de nós.

Tu já ausente, íntimo e implacável na tua silhueta ambreada,
E eu finalmente mergulhada no derrame quente do sol,
Tu e eu, renascentes e desinvernados.

quinta-feira, 11 de abril de 2013

ao som da valsa assassina

pergunto se queres morrer lentamente nas minhas mãos,
quando, no final de cada tarde, dançamos ao som dessa valsa assassina.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

digo-te até amanhã


[o poema de António Lobo Antunes que encontrei num blog e publiquei no hálito azul da tarde...não me sai da cabeça...escrevi este, inspirado no anterior de uma forma absolutamente descarada mas ainda assim humilde]

não disse nada amor,
disse apenas até amanhã!
digo-te até amanhã,
porque à noite todas as promessas são trémulas
mas ainda assim o coração sossega,

ele sossega não sei porquê, mas à noite não procuro razões.

não disse nada amor
espero apenas pela manhã,
e estou cansada porque de noite os caminhos não têm fim
e eu nunca chego onde devo, nunca chego a ti, nunca chego onde preciso,

não disse nada amor,
disse apenas até amanhã!
digo-te até amanhã.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

entre nós


entre nós
as palavras
e dentro de nós uma surdez,

entre nós
a densa negrura de muitas noites,
e uma chuva dentro de nós a encher-nos os pulmões,

entre nós
um único fôlego de pele a consumir,
e dentro de nós a clara chama que nos acende,

entre nós
a dúvida que cai dos lábios,
e nada dentro de nós que a dissipe,

entre nós
o eco dos teus dedos,
e dentro de mim apenas luz,

entre nós
eu estou aqui,
eu estou aqui como se estivesse dentro de nós.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

habitas-me sem eu querer


habitas-me sem eu querer,
e sem te querer perder
quero tornar infinito o instante mais breve da minha vida.

sou metade de mim,
metade vazia, metade tóxica,
metade que ainda espera,
metade consagrada ao meu medo e ao teu fim.

só eu sei que exististe,
e que depois tudo mudou.

e perco-me.

perco-me no espaço miúdo e deserto,
na crueza da tua inexistência.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

sinto delicadamente o ressentimento

sinto delicadamente o ressentimento
dessa ausência que te traiu.

a distância que consentiste prolongar e transformar em esquecimento,
tecida de silêncio omisso, de tempo não pronunciado.

assim estou nesta manhã, ausente e longe do centro,
na fronteira amena do coração,
e vejo pássaros de asas azuis que deixam cair as tuas últimas palavras
escritas, que te espalham à minha volta,
e olho para linhas de horizonte onde deverias surgir,
regressando de lugares onde
apenas uma sombra morna te denuncia.

sinto delicadamente o ressentimento
dessa ausência que te traiu,
mas não foi acaso encontrar-te antes,
nem circunstancial ou abstracto o nosso entendimento.

há uma mensagem escondida e secreta
nesta manhã,
um tempo a vir, já escrito,
um mês próximo de remissão,
e um recomeço.