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saberás por acaso que a praia está vazia

saberás por acaso que a praia está vazia
e as ondas já não quebram perto dela,

que nos imagino aqui à superfície,
corpos exilados à procura de água doce
e o sal a estilhaçar na pele, a traçar caminhos, a deixar rasto,

segue-me porque há ondas que rebentam na minha boca,
há guitarras e canções e correntes de ar que explodem como estrelas no meu corpo,

olha a praia azul e serena
onde a água se deita como uma pequena deusa cansada no final da tarde,

podíamos ser como ela e podíamos ficar, podemos ser cúmplices,
poderíamos amar, e quereríamos sofrer, saberíamos mudar,
mas saberás sequer que aqui estamos mesmo quando nos olhas,
que o mundo por instantes é belo e perfeito
que há silêncio e que a noite se atrasa quando nos vê,
que há um significado invísivel nos teus gestos,
cheiros que se revelam como fotografias,
memórias que nos habitam como um vírus,

não há palavras pousadas na minha língua,

há expectativas espalhadas por tanto mar,
por isso te vigio, ser
estranho
mutante
prometedor

[Jack Spencer]

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Fragmento.1

Nunca quisera voltar àquele lugar. Odiava regressos. Mas a vida puxara-o, em cada momento seu de distração, e há muito que deixara de estar atento e seguro.

Ali estava agora nesse presente sem sentido algum, naquela beira-mar acumuladora de memórias. Apenas ali as imagens persistiam. Apenas ali. Quase imaculadas. Depostas. Sagradas. Como uma armadilha.


Ruth Brownlee (pintura)

A noite encosta-se nas minhas costas como uma irmã que esteve ausente

A noite encosta-se nas minhas costas como uma irmã que esteve ausente,
e promete-me que a morte é apenas mais um movimento.

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esta mesma chama que agora me arrefece, é aquela que me silenciou os medos, 
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uma mortalha que me consome o oxigénio no seu odor placentário e primordial.

Não sei se me entrega, se me devolve, ou me abandona.

A noite encostou-se nas minhas costas como uma irmã que esteve ausente,
e prometeu-me que a morte era apenas mais um movimento,
porque os nossos dias são um ciclo de Perseidas que não se extingue.

As derradeiras cores na luz desta tarde, leva-as contigo

As derradeiras cores na luz desta tarde, leva-as contigo, Embrulha-te nelas ou oferece-as pelo caminho. Leva contigo também o cheiro a maresia preso nos pinheiros, E as nuvens que ficaram entrançadas no vento.
Este vento que persiste como chuva na nossa alma.
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Atravessado o tempo do medo e da euforia, E aquietados os pequenos estrondos do nosso peito, Perfeito o rito, somos puros e sublimes aliados.
Fico com tanto de nós, levas tanto de nós.
Tu já ausente, íntimo e implacável na tua silhueta ambreada, E eu finalmente mergulhada no derrame quente do sol, Tu e eu, renascentes e desinvernados.