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és um pequeno animal de papel nas minhas mãos

Desenhas-me com as tuas palavras enquanto me olhas,
e ficas depois como um pequeno animal de papel nas minhas mãos

Escreves-me
e o som vibra dentro de mim

Cheiro-te,
procurando as impressões dos teus dedos, o relevo das tuas linhas,
e nesse caminho de sobressaltos olhamo-nos

há um instante puro e esmagador que nos transforma,

um labirinto que nos tenta,

uma palavra que nos esmaga.

[Isabel Lhano]

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Fragmento.1

Nunca quisera voltar àquele lugar. Odiava regressos. Mas a vida puxara-o, em cada momento seu de distração, e há muito que deixara de estar atento e seguro.

Ali estava agora nesse presente sem sentido algum, naquela beira-mar acumuladora de memórias. Apenas ali as imagens persistiam. Apenas ali. Quase imaculadas. Depostas. Sagradas. Como uma armadilha.


Ruth Brownlee (pintura)

A noite encosta-se nas minhas costas como uma irmã que esteve ausente

A noite encosta-se nas minhas costas como uma irmã que esteve ausente,
e promete-me que a morte é apenas mais um movimento.

Ela deixa o meu corpo arder vagarosamente na luz que ainda persiste no mar,
e lembra-me que esta mesma luz que agora me extingue, é a mesma que iluminou o meu passado,
esta mesma chama que agora me arrefece, é aquela que me silenciou os medos, 
e o mar que me engole tem o mesmo sal que outrora me sarou.

A minha irmã impudente e ciosa, cobre-me com um manto pardo,
uma pele tecida de pecados e virtudes, áspera, perfumada e penosa,
uma mortalha que me consome o oxigénio no seu odor placentário e primordial.

Não sei se me entrega, se me devolve, ou me abandona.

A noite encostou-se nas minhas costas como uma irmã que esteve ausente,
e prometeu-me que a morte era apenas mais um movimento,
porque os nossos dias são um ciclo de Perseidas que não se extingue.

As derradeiras cores na luz desta tarde, leva-as contigo

As derradeiras cores na luz desta tarde, leva-as contigo, Embrulha-te nelas ou oferece-as pelo caminho. Leva contigo também o cheiro a maresia preso nos pinheiros, E as nuvens que ficaram entrançadas no vento.
Este vento que persiste como chuva na nossa alma.
Eu fico a desfiar as nossas conversas, Cada fio, cada palavra, um desassombro de revelações, Fico a demorar os meus dias no abrigo hibernante de cada hora, E, inabalável e poderosa, teço o pano dos nossos afetos.
Atravessado o tempo do medo e da euforia, E aquietados os pequenos estrondos do nosso peito, Perfeito o rito, somos puros e sublimes aliados.
Fico com tanto de nós, levas tanto de nós.
Tu já ausente, íntimo e implacável na tua silhueta ambreada, E eu finalmente mergulhada no derrame quente do sol, Tu e eu, renascentes e desinvernados.