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por ora, apenas os ramos batem nos vidros da janela

por ora
apenas os ramos batem nos vidros da janela.

é tarde nesta véspera de natal,
a noite adensa-se,
o mundo recolhe-se como pode
e os sons ensurdecem na terra fria,
mas a promessa da tua vinda é certa,
a minha memória é verdadeira
e isso basta-me.

tudo me diz que é tarde nesta véspera de Natal,
e por ora apenas os ramos batem nos vidros da janela.

neste tempo liminar, esgota-se o rasto do dia que acabou,
a luz escorre pelas pedras velhas do caminho
e não te oiço ainda nesse rio por onde vens,
mas o meu coração contrai-se,
eu espero-te, tanto,
e isso basta-me!

é noite de natal,
os ramos cantam nos vidros da janela
és tu?... és tu!
só amor, só amar,

isso basta-me.

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Fragmento.1

Nunca quisera voltar àquele lugar. Odiava regressos. Mas a vida puxara-o, em cada momento seu de distração, e há muito que deixara de estar atento e seguro.

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Ruth Brownlee (pintura)

A noite encosta-se nas minhas costas como uma irmã que esteve ausente

A noite encosta-se nas minhas costas como uma irmã que esteve ausente,
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Não sei se me entrega, se me devolve, ou me abandona.

A noite encostou-se nas minhas costas como uma irmã que esteve ausente,
e prometeu-me que a morte era apenas mais um movimento,
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As derradeiras cores na luz desta tarde, leva-as contigo

As derradeiras cores na luz desta tarde, leva-as contigo, Embrulha-te nelas ou oferece-as pelo caminho. Leva contigo também o cheiro a maresia preso nos pinheiros, E as nuvens que ficaram entrançadas no vento.
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Fico com tanto de nós, levas tanto de nós.
Tu já ausente, íntimo e implacável na tua silhueta ambreada, E eu finalmente mergulhada no derrame quente do sol, Tu e eu, renascentes e desinvernados.